O CONTADOR DE HISTÓRIAS SILENCIOSO
João Bonifácio
Lars Saabye Christensen será certamente um nome desconhecido em Portugal, mesmo entre aqueles que se prezam de acompanhar a literatura contemporânea. Para lá de Jon Fosse ou Henrik Ibsen, não são muitos os autores noruegueses traduzidos em Portugal, mas o ano passado a editora Cavalo de Ferro editou um dos grandes nomes da contemporânea literatura norueguesa, exactamente o tal desconhecido Lars Saabye Christensen. Esse anonimato não se deverá, certamente, a falta de reconhecimento interno ou a escassez de produção: nascido em 1953, começou a editar em 1970, e, além de romancista, é igualmente argumentista e poeta - e faz questão de, em conversa, mencionar consecutivamente o seu amor pela poesia. Foi várias vezes premiado na Noruega e o seu nome costuma aparecer nas listas de potenciais vencedores do Nobel.
Se "Herman", o livro editado o ano passado, permitia descobrir um escritor raro, capaz de conduzir uma história com uma destreza singular e de surpreender pela audácia imagética, "Beatles", que acaba de ser editado cá (e que foi originalmente editado nos anos 80), confirma-o. Se em "Herman" revelava uma imaginação sem limites ao acompanhar a trajectória de Herman, uma criança que, por uma doença desconhecida, começava a sofrer de queda de cabelo (mas na realidade isso era apenas uma desculpa para entrar no mundo distorcido e fascinante da mente de um miúdo), em "Beatles", um romance sobre quatro adolescentes que crescem na segunda metade dos anos 60, essa imaginação traduz-se menos em diabruras mentais e mais numa montanha-russa de acontecimentos que deixam o leitor ofegante.
Ao contrário dos seus personagens, em conversa Christensen revela-se lacónico e um pouco distante - pese embora a timidez que ostenta seja comum à das crianças e dos adolescentes que povoam os dois romances que lhe conhecemos. Dir-se-ia que à inquietude do seu silêncio poderia corresponder a inquietude mental de Herman ou de Kim, mas isso poderia soar a exercício de adivinhação. Até porque o que dele sabemos é pouco: é notório que Saabye Christensen repete respostas que lhe conhecíamos de outras entrevistas e apenas se entusiasma para referir o quanto detestou os anos 80.
Na realidade, não fosse a notória timidez e arriscaríamos dizer que o autor norueguês parece procurar sempre que as suas respostas sejam tão curtas quanto humanamente possível: é sintético, abandona frases a meio. E é quase sempre suficientemente vago para nunca ficarmos a saber mais que algumas coordenadas gerais acerca dos seus métodos de escrita. Ainda assim, culpemos a hora: quando o encontrámos pouco passava das nove da manhã e Christensen tinha acabado de tomar o pequeno-almoço.
Passemos então aos dados verificados durante a conversa: "Beatles" foi escrito durante os anos 80, quando Saabye andava pelos trintas. No entanto, ele começou a escrevê-lo "quando tinha 26 ou 27 anos", porque lhe pareceu "a altura indicada para o fazer", já que "tinha simultaneamente a distância necessária e uma boa memória da época que estava a descrever". Este é o único momento em que Saabye se entusiasma, para dizer exactamente isto: "Claro, eu detestei os anos 80, detestei a música, tudo nos anos 80, a moda, os cortes de cabelo..." De onde conclui que talvez como reacção à época "tenha sido necessário escrever o romance, escrever acerca de rock"n"roll".
Temos, portanto, um romance de crescimento e não um romance sobre o quarteto de Liverpool. Os Beatles do romance não são John, Paul, George e Ringo, mas sim Kim, Gunnar, Seb e Ola, quatro adolescentes na Noruega da segunda metade dos anos 60, fãs dos Beatles ao ponto de se nomearam como os seus heróis: Kim, o narrador, é Paul, Gunnar é John, George é Seb e Ola é Ringo. A identificação traz pequenos traços das personalidades do quarteto inglês: Kim é mais lamechas que os outros, Gunnar tem a carga revolucionária de John, Seb a distância de George, Ola a lentidão de Ringo.
Não é difícil de perceber, desde o início do livro, que a simples menção dos Beatles é uma metáfora para a adolescência: aqueles quatro funcionam sempre em conjunto, em regime de imediata identificação. Quando os conhecemos, estão a matar tempo a roubar os símbolos das grelhas dos carros - e isto, só por si, dá uma ideia do grau de intimidade que os une.
Mas pedir a Christensen interpretações das suas personagens pode ser frustrante. Ainda assim, ele faz uma analogia entre a adolescência dos rapazes do seu romance e a própria carreira dos Beatles: oito discos em quatro anos, o caminho da simplicidade para questões gradualmente mais complexas, e a separação às mãos de drogas e mulheres. "Na adolescência tudo se passa num curto período de tempo, não é?", vai dizendo, antes de se entregar a uma das suas muitas longas pausas. Depois ganha de novo fôlego para uma resposta que, pelo seu cânone, deve ser enorme: "Começa-se com "I feel fine" - é um título tão bom, "I feel fine" - e acaba-se em "Revolution" e são apenas quatro anos. Por isso as canções pop podem incluir tanto dentro elas, podem ir de "I feel fine" a "Revolution" e há uma enorme distância entre elas..."
Convém explicar que "I feel fine" e "Revolution" não são apenas uma das primeiras e uma das últimas canções dos Beatles - são também o primeiro e um dos últimos capítulos do romance de Christensen. Além dos Beatles há menções à Guerra do Vietname e ao Maio de 68, mas o autor nunca se afasta do seu propósito inicial que, como ele faz questão de vincar, é primeiramente o de contar uma história. Sim, este romance é um retrato de geração, "mas simultaneamente é apenas um retrato de quatro rapazes que crescem ao som de rock"n"roll, enquanto fazem o que os rapazes fazem o tempo inteiro". Interpretações à parte, "é tão simples quanto isso". Quando muito, "a moldura do retrato é um pouco mais lata".
Curiosamente, e apesar de se estender pouco acerca da sua escrita, Christensen diz ser "um desafio e extremamente interessante voltar a este livro", porque "de certa forma este romance é a base de tudo o que veio depois". Até no explorar das contradições de personagens jovens: "Muitas das minhas histórias lidam com essas idades, são idades muitos frágeis, há muito drama, poesia e conflito." Christensen toca muitas vezes na tecla da linguagem poética, mas para ele "imaginação e memória estão intimamente ligadas". Exemplifica dizendo que, apesar de não escrever romances autobiográficos, tentar lembrar-se da sua vida quando escreve. "E para mim isso é muito importante." No caso de "Beatles", por exemplo, há algo de autobiográfico no sentido em que Christensen "queria escrever um romance sobre o crescimento" e queria "que fosse uma história que envolvesse rock"n"roll", por isso "tinha de recorrer à experiência": "Eu era um grande fã dos Beatles e tinha de escrever sobre algo que eu conhecesse. Não poderia escrever sobre outras bandas. É o lugar e o tempo em que eu cresci."
Mas não é apenas isso, porque Christensen entra por dentro da cabeça das personagens, mostra as contradições, dá diferentes versões dos mesmos pormenores. "Acho é que me agradam imenso os detalhes e que, quando juntamos muitos detalhes, então temos uma vida", diz, depois de reafirmar mais uma vez que o que lhe interessa é contar histórias. É que "contar histórias é uma espécie de tolerância prática".
É Lars Saabye Christensen, escritor silencioso.
O AMANHÃ NUNCA SABE
J.B.
Não há uma única "ideia" em "Beatles". Não há uma única inquirição existencial acerca do "ser humano". Não há longos monólogos metafísicos, elucubrações acerca da "verdade" ou do "real" - tudo questões fundamentais quando se lida com um conceito como o de "identidade", algo de fundamental no século XXI - e que atravessa, como uma seta invisível e cega todo este romance. E, no entanto, todos os vectores acima mencionados estão presentes ao longo das quase 600 páginas de "Beatles", diluídos num brilhante (apesar de extremamente discreto) trabalho de linguagem, afundados na discreta estrutura interna.
"Beatles" é, mais que um romance sobre a adolescência (embora tenha como personagens quatro adolescentes na segunda metade dos anos 60, na Noruega), um romance sobre o crescimento e a identidade. É, por isso, um romance que vive do constante instaurar e ruir de absolutismos, que vive da distância entre as diferentes reacções que a mesma personagem tem face a eventos semelhantes.
Narrado por Kim (que, num truque extremamente inteligente por parte de Christensen, é constantemente apelidado de "mentiroso"), "Beatles" não se fica pelo "quadro histórico"; antes os acontecimentos (o Vietname, o Maio de 68) funcionam com um pano de fundo, um pano de fundo que permite perceber o funcionamento interno das personagens. Antes de mais, porque eles vivem de uma "realidade emprestada" (têm acesso aos acontecimentos da época pela televisão e jornais, e era a primeira vez na história da humanidade que o mundo se observava mutuamente numa espécie de estratégia de vigilância); depois porque, por exemplo, durante uma manifestação antiguerra do Vietname a preocupação dos quatro é a possível separação dos Beatles.
O livro demora-se nos pormenores de adolescência: bombinhas, o roubo de uma revista porno, a primeira cerveja. A descoberta das raparigas. A lógica de grupo. A verdade absoluta e a descoberta da mentira: aos amigos, aos pais, dos pais aos filhos, dos filhos entre si. O nascimento da consciência social e dos escalões sociais. A abundância de pormenores faz-nos "crer" na gravidade das angústias de cada um daqueles miúdos - e a universalidade das "vinhetas" (usadas de forma quase cinematográfica e com um agudo sentido de humor "nonsense") permite ultrapassar o fenómeno geracional.
A segunda parte do livro é mais crua e negra. Corresponde ao pós-Maio de 68, à explosão da heroína, ao fim dos Beatles - o fim do preto e do branco. A linguagem das personagens é também diferente. Há um sentimento de desnorte naquelas personagens, ampliado pelo ruir de velhas dicotomias e normas sociais.
Em última instância, é apenas uma história extraordinariamente bem contada que leva às últimas consequências as palavras de John Lennon: "Tomorrow never knows" - o que, tendo em conta a idade das personagens, torna "Beatles" num romance sensível, de um humor refinado e comovente, capaz, aqui e ali, de ser cruel. Lê-se de uma penada e sabe "a um Verão inteiro e a meia infância".