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O galo de ouro
Juan Rulfo
Sobre o natural
A importância de Juan Rulfo (1918-1986) na literatura latino-americana é de tal modo incomparável que quaisquer exercícios de aproximação (ocorrem-me Dante ou Goethe, pela reafirmação e renovação de substratos culturais profundos, mas sempre com devidas distâncias) serão sempre insatisfatórios. Eis o homem que, num pequeno punhado de extraordinários textos, encontra a ferida tectónica que liga as correntes subterrâneas da América Latina, o magma invisível das tradições indígenas e mestiças, à presença do Ocidente por via castelhana; como afirma Augusto Roa Bastos num dos fundamentais textos introdutórios a este volume: "A obra de Rulfo (...) é atravessada por estes rastos do pensamento mítico e mágico da cultura ancestral. (...)" Mais afirma, à procura do mito de Édipo na obra-prima de Rulfo, "Pedro Páramo": "O mito que reconcilia no contexto de uma realidade cultural mestiça (não autóctone, porque esta hoje já não existe) a sua unidade e identidade histórica. O mito endógeno, engendrado pelo conflito das suas duas metades que nunca se chegam a juntar desde o corte imperial da conquista."
O que poderia ser uma divisão, um conflito entre duas naturezas distintas impostas pela colonização sangrenta, em Juan Rulfo se transforma na compreensão dos veios mágicos da terra com a paisagem densamente interior dos homens. Disso fala "O Galo de Ouro", a novela de Rulfo coligida neste volume (acompanhada de outros textos seus, fragmentos ou estudos, e de textos críticos fundamentais para a compreensão da obra de Rulfo). No conto, Dionísio, um camponês pobre como os seus, recebe, no final de uma luta de galos, o perdedor quase moribundo. "Ao chegar a casa, fez um buraco debaixo da telha vã e, auxiliado pela sua mãe, enterrou ali o galo, deixando-lhe apenas a cabeça de fora." Misturado com a terra, dando-lhe milho, o galo dourado recupera forças e será a origem da mudança de fortuna de Dionísio. É a intervenção da terra, da terra natal que só lhe trouxera tristezas e pobreza (acompanhando a "ressurreição" do galo com a morte da mãe) que ditará a alteração do seu destino. Essa é uma das marcas mais prementes do realismo mágico de que este texto é precursor. Realismo mágico, conceito definido pelo crítico alemão Franz Roh para as artes plásticas, mas depois recuperado para a literatura sul-americana, recolhendo várias definições, concentra-se na intervenção sobrenatural, fantástica, de elementos naturais na construção de um destino pessoal ou colectivo; não determinismo, mas a junção de elementos anteriores, telúricos, de forma sobre-natural, ou seja, a partir e dentro do natural.
Assim o conta esta história de Juan Rulfo, conto de uma limpidez e força incomparáveis, onde o destino se constrói e desmonta sob as circunstâncias fundas da terra dentro de cada personagem. Tudo isto se pode ler na obra de Rulfo, que a Cavalo de Ferro tem editado em excelentes traduções, e que este volume vem completar.

Pedro Sena-Lino, Público MilFolhas
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