Dizem as crónicas islandesas, que em tempos remotos, homens das Ilhas Ocidentais tinham chegado à Islândia e que por lá viviam. O seu chefe era Kólumkilli, um feiticeiro irlandês que gozava de grande reputação. Por esses tempos, a terra islandesa era fértil. Mas quando os noruegueses chegaram para se estabelecerem, os feiticeiros tiveram que fugir, deixando para trás crucifixos, sinos e outros artigos usados na prática de feitiçaria. Rezam ainda os escritos antigos que Kólumkilli, para se vingar, amaldiçoou a ilha e os invasores vikings, e que rogou que aquele nunca fosse um lugar de prosperidade. E assim aconteceu, pois “durante mil anos os homens imaginaram que conseguiriam sair da crise de um modo misterioso e que seriam proprietários duma herdade (…), é este o eterno sonho. Alguns crêem que só se realizará no Céu.” Isto é o que nos conta o escritor islandês, Prémio Nobel da Literatura, Halldór Laxness, no começo de “Gente Independente”; o romance foi finalmente publicado em Portugal, setenta e dois anos depois da edição original. Os caminhos da edição portuguesa são insondáveis.
“Gente Independente”, que é considerado uma obra-prima da literatura do século xx, é a história de um homem obcecado por ovelhas, Bjartur, que passados dezoito anos a trabalhar “como um escravo” para o patrão, o latifundiário governador do distrito, lhe consegue comprar a crédito um pequeno rebanho e uma quinta que todos acreditavam estar assombrada. Nessa quinta vivera, havia séculos, a bruxa Gunnvör e o marido. Ela “descansava pouco na sua sepultura e muitas vezes aparecia nos seus antigos aposentos. Reanimava alguns daqueles homens que tinha morto (…) e as pessoas que viviam em Albogastaðir tinham pouco descanso uma vez instalada a balbúrdia ao cair da noite.” Mas Bjartur não acredita em bruxas nem em fantasmas, e está “decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que aqui se instalaram antes dele.” Mas serão a liberdade e a independência possíveis nesta Islândia quase feudal, miserável, sem recursos naturais, cuja população vivia quase apenas da pastorícia, e à época ainda ocupada pela Dinamarca (só se tornaria independente em 1944)? E que preço terá ele, e os que dele dependem, que pagar?
Bjartur é uma das personagens mais inesquecíveis e mais fascinantes da história da literatura do último século: heróico, brutal, poético, teimoso, cínico e infantil. “Ele era somente um simples agricultor do interior dos vales e lutara contra a natureza e os monstros do país com as suas próprias mãos, enquanto a sua mais elevada cultura provinha toda das rimas e das sagas antigas, onde homens lutavam uns contra os outros sem mais preâmbulos, esquartejavam-se uns aos outros e empilhavam os restos mortais.” É heróico na sua luta contra os fantasmas de um “passado de mil anos” e contra uma natureza demasiado hostil, que sucessivamente o vão impedindo de sair da pobreza, “lombrigas não são a pior das desgraças que podem ocorrer nos vales remotos, mas antes as forças ocultas da existência que não podem ser contidas nem sequer com uma boa colheita de feno. A velha tinha razão quando dizia que o pior estava para vir.”; é brutal porque se preocupa mais com o bem-estar das ovelhas do que com o da sua própria família, “se as ouvisse queixarem-se da humidade, respondia-lhes, que cobardes míseros eram aqueles que se importavam com o tempo molhado ou seco. Não passa de mais uma maldita excentricidade isso de querer estar seco, dizia, tenho estado molhado durante mais de metade da minha vida, e nunca me senti mal por isso.”; é poético como um bardo viking, ao compor poemas no tradicional estilo islandês das complexas rimur, e é com essa poesia que acaba por salvar a sua própria vida num dos episódios mais oníricos e de maior tensão dramática de todo o romance: aquele em que Bjartur, montado numa rena macho (o diabo Kólumkilli?), se precipita nas águas geladas do rio Glaciar e depois declama todos os poemas antigos que conhece para se manter acordado; é teimoso na obsessão pela sua independência, mesmo quando lhe morrem a primeira e a segunda mulher e quase todos os anos tem que carregar às costas o caixão de um filho recém-nascido. “A noite nunca chega a ser tão escura e longa que os homens não depositem a sua esperança no distante nascer do dia.”; cínico ao defender a primeira Guerra Mundial “sim, esta maravilhosa guerra mundial, queira Deus que nos seja concedida de novo uma igual muito em breve (…). Oxalá assim continuem por tempo indefinido, para que o valor da carne e da lã continue a subir.”; e é infantil na maneira como resolve o que parece ser o centro de todo o romance, o conflito entre Bjartur e a filha, Ásta Sóllilja, que ele anos antes expulsara de casa (e que na verdade não era sua filha), ao socorrer-se de um convite de uma criança que vê por acaso a brincar na rua, Björt (feminino de Bjartur, que significa “resplandecente”), e que acredita ser filha de Ásta, para beber café em sua casa.
A imaginação prodigiosa de Halldór Laxness leva-nos, por vezes, a visitar um mundo onde elfos e trolls convivem em harmonia com os humanos numa branca paisagem gelada, e onde tempestades de neve quase irreais nos trazem os sons estranhos das mais belas músicas dos modernos islandeses Sigur Rós e Björk.
Laxness inspirou-se nas sagas medievais islandesas para escrever este inesquecível romance, pois não aparecem por acaso as frases longas, que tentam dar um efeito de acumulação ao enredo; nem a narração por vezes no presente, dando à história uma presença mais real; ou a alternância, que não é simples, entre presente e passado, ou entre discurso directo e indirecto; até a última parte do livro se intitula “Fim da História”, à maneira dos vikings.
“Gente Independente” é um livro que apetecerá reler sempre, e que entrará no Top 10 dos “Livros da Minha Vida” de muitos leitores.