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Crimes do acordeão
E. Annie Proulx
Não foi a primeira vez que aconteceu, nem será, com certeza, a última. Sem o filme de Ang Lee e a controvérsia à volta dos vaqueiros apaixonados, o nome de E. Annie Proulx pouco ou nada diria ao público português. Brokeback Mountain, o conto, originalmente publicado na revista New Yorker (1997), seria coligido em 1999 no primeiro volume das suas estórias do Wyoming, Close Range — na edição portuguesa Terreno Vedado: estórias do Wyoming. A editora Bico de Pena chama-lhe antologia, por ter excluído da selecção a história de Ennis Del Mar e Jack Twist, que fora já editada no ano passado a reboque do filme em que Heath Ledger e Jake Gyllenhaal dão corpo ao mais famoso par homossexual do cinema. Sem essa história — de regresso às livrarias, sob a forma de bónus de Terreno Vedado —, e a celeuma alimentada pelo activismo gay, o nome da autora continuaria a ser uma referência muito vaga em Portugal. Há nisto alguma injustiça, embora relativa, porquanto também não é a primeira vez que um episódio circunstancial ilumina uma obra que dispensa esse tipo de corroboração.

Edna Annie Proulx nasceu em Norwich, no Connecticut, a 22 de Agosto de 1935. Autora celebrada, porém parcimoniosa (oito livros em vinte anos), tem visto o rigor do seu trabalho sucessivamente consagrado, o que não deixa de ser extraordinário por duas ordens de razões: primeiro, porque os temas que escolhe não são “fáceis”; segundo, por ter construído a obra à margem da Academia e dos círculos literários da costa Leste. Isso não impediu que o seu segundo romance, The Shipping News (1993), tivesse recebido os dois mais prestigiados galardões americanos: o Prémio Pulitzer na modalidade de ficção, e o cobiçado National Book Award. Foi a partir dessa saga da Terra Nova que o realizador Lasse Hallström fez em 2001 o filme homónimo, mas nem a intriga, nem o elenco de luxo — Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Cate Blanchett e outros — foram suficientes para despertar a curiosidade dos editores portugueses.

A situação tende a ser corrigida. The Shipping News, que mantém na edição portuguesa o título original, foi editado pela Cavalo de Ferro em Setembro do ano passado, com tradução de Nuno Batalha. E há poucas semanas chegaram às livrarias mais dois: o já citado Terreno Vedado: estórias do Wyomimg, traduzido por Tânia Ganho (que traduzira já o conto dos vaqueiros apaixonados), e esse monumento literário que dá pelo nome de Crimes do Acordeão, traduzido por Luís Coimbra, numa cuidada edição da Cavalo de Ferro que devia dispensar a indicação Prémio Pulitzer grafada na capa. Annie Proulx recebeu mais de uma dúzia de prémios, incluindo o PEN/Faulkner pelo primeiro romance, Postcards, de 1992 — foi mesmo a primeira mulher que o recebeu pelo romance de estreia —, mas Crimes do Acordeão, que considero a sua obra mais ambiciosa, não obteve nenhum.

Considerado o romance da América, Crimes do Acordeão pode ser lido como uma sequência de contos, oito precisamente, unidos por um sujeito comum, o acordeão verde com dezanove botões de osso polido (de um cabrito previamente degolado). A partir de 1890, a história cobre cem anos: «Em alguns casos, personagens inventadas foram colocadas no cerne de acontecimentos reais; noutros, acontecimentos reais foram ligeira ou pronunciadamente ficcionados.» Em abono da narrativa, Annie Proulx socorre-se da imprensa da época: linchamentos de imigrantes e outros episódios marcantes. Tudo começa na Sicília, mas é na América, a mítica La Merica, que a saga ganha corpo. O fabricante de acordeões é assassinado em Nova Orleães, e o requintado objecto segue o seu destino. Pretexto para dissecar a história dos imigrantes italianos, irlandeses, mexicanos, etc., bem como a importância das idiossincrasias étnicas na construção do Novo Mundo. O discurso é torrencial e muitas vezes cru. Em certas passagens, dir-se-ia que acompanhamos o guião de Carnivàle, a obra-prima de Daniel Knauf — série que em Portugal se chama A Feira da Magia — sobre o dustbowl, a grande depressão dos anos 1930: «Enquanto descia pela vereda, via as luzes eléctricas penduradas em torno da casa desdobrável e ouvia as palpitações do gerador. Aproximando-se, distinguiu uma franja de pessoas a balançarem defronte da igreja itinerante. De onde teriam vindo?, perguntou-se. Não eram destas bandas, aquelas mulheres angulares com peitos cavados e rostos empedernidos, homens tão secos como o gado cornilongo do Texas, todos eles a balançarem para trás e para a frente de olhos fitos em Harold Poplin, com uma Bíblia na mão direita, que se erguia debaixo das lâmpadas descobertas, envoltas em cobras-cascavéis. Cobras que se torciam em torno do seu pescoço, pelas mangas do casaco acima e para dentro da camisa, cobras enroscadas de ponta a ponta nas pernas das suas calças folgadas nos joelhos, pingando-lhe dos dedos em jeito de óleo gelado. Um poste com uma tábua pregada no cimo era o seu altar.» Não vale a pena invocar o realismo fantástico porque os americanos já o tinham descoberto antes de Cortázar. Histórias de identidades, como sempre acontece na obra da autora, Crimes do Acordeão ilustra uma verdade incómoda: o racismo social que muitas vezes subjaz às relações multiculturais.

Não admira que, para o leitor comum, os contos de Terreno Vedado — e em particular Brokeback Mountain — assegurem maior fluidez de leitura. Nenhum deles tem a complexidade de Crimes do Acordeão, a sua apertada malha de referências históricas, sociológicas e culturais, o vocabulário exigente (cruzando-se com uma panóplia de termos não anglófonos, citados sempre no original, por razões que Luís Coimbra, o tradutor, expõe com clareza) e as curiosas expressões idiomáticas que pontuam as 461 páginas do livro. Pode-se dizer o mesmo sobre The Shipping News, embora as peripécias da história de Quoyle suscitem outro tipo de adesão junto do público menos sofisticado.

O sucesso de Brokeback Mountain, que se confunde com o sucesso de Annie Proulx em Portugal, não tem nada a ver com literatura. É um sucesso de “escândalo”, porque põe a nu o carácter itinerante da líbido dos dois rapazes. Sabendo-se que, em circunstâncias concretas, a linha de fronteira que distingue heterossexuais de homossexuais é de natureza virtual (o que parece vir dar razão ao argumento de que ‘não há homossexualidade mas sim actos homossexuais’...), a cena de iniciação entre Ennis e Jack não tem outro significado senão o de reflectir as exigências do corpo. Colocando-os a partilhar o mesmo saco-cama, numa noite em que Ennis, «podre de bêbado», deixa as ovelhas entregues à sua sorte no alto da montanha, Annie Proulx descreve assim a situação: «O saco-cama é suficientemente grande — disse Jack, numa voz irritadiça, pejada de sono. Era suficientemente grande, suficientemente quente e, daí a pouco, eles aprofundaram consideravelmente a sua intimidade. Ennis fazia tudo a pleno gás, quer fosse reparar as vedações, quer fosse gastar dinheiro, e não quis sequer saber quando Jack lhe pegou na mão esquerda e a puxou para o seu sexo erecto. Ennis afastou a mão bruscamente como se tivesse tocado no fogo, pôs-se de joelhos, desapertou o cinto, puxou as calças para baixo, içou o corpo de Jack para a posição de gatas e, com a ajuda do muco transparente e um bocado de cuspo, penetrou-o, coisa que nunca tinha feito antes, mas não precisava de manual de instruções.» Dando de barato o eufemismo («aprofundaram consideravelmente a sua intimidade»), frouxo e desnecessário, tendo em vista o relato gráfico do que segue, a história é verosímil. Noutras passagens, com o ser plausível, a sedução da escrita dá uma tonalidade correcta ao enfoque. Quatro anos passados sobre a primeira noite, ambos estão casados e têm filhos. Será na qualidade de pais de família que reatam a ligação, mantida em encontros periódicos na montanha de Brokeback. O fantasma da ‘diferença’ persegue Ennis, marcado desde criança pela revelação de um linchamento homofóbico: «Sabes que passei este tempo todo a tentar perceber se eu seria...? Eu sei que não sou. No fim de contas, nós dois temos mulher e filhos, não temos? Eu gosto de ir para a cama com mulheres mas, porra, não tem nada a ver com isto. Nunca me passou pela cabeça ir com outro gajo, mas podes crer que bati à punheta milhentas vezes a pensar em ti. Tu vais com outros gajos, Jack?» Não estamos portanto a falar de uma história gay, mas da difícil relação amorosa de dois homens, inseridos no meio rural, e em anos (os anos 1960 e 1970) menos propícios a veleidades identitárias.

Antes de publicar o primeiro livro, Sweet and Hard Cider: Making It, Using It and Enjoying It (1984), Annie Proulx foi jornalista, tendo colaborado em inúmeras publicações, incluindo uma especializada em ficção científica. Tentou a carreira académica, inviabilizada tanto por razões de instabilidade emocional como por incidentes domésticos (maternidade, divórcio, mudança de Vermont para o Wyoming), mas ficou por um Master of Arts obtido na Universidade de Montreal, no Quebeque, não tendo chegado a completar o doutoramento. Os seus interesses vão da Renascença à cultura chinesa, multidisciplinaridade que é patente nos livros que publicou, mesmo quando discorre sobre queques ingleses. Casou pelo menos três vezes, e divorciou-se outras tantas. Viajou muito e tem fama de gourmandise, atributo pouco emocionante numa biografia isenta de glamour. Pela leitura dos seus livros percebe-se a disciplina férrea, e o método da escrita, com recurso frequente a fontes de muito diversa proveniência, das mais eruditas (poesia do século XVII, por exemplo) às mais prosaicas, como sejam a consulta de almanaques ou velhos livros de receitas da Terra Nova.

Entre nós, O Segredo de Brokeback Mountain foi uma falsa partida. Sirva ao menos para despertar a atenção para uma autora singularíssima.

Eduardo Pitta, Público Ípsilon
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E. Annie Proulx
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