"Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,/fantátsicas, fingidas, mentirosas,louvar os vossos, como nas estranhas,/ Musas, de engradecer-se desejosas./As verdadeiras vossas são tamanhas, /que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro/ e Orlando, inda que fora verdadeiro."(Lusíadas,1.11)
Assim Camões exprime o seu júizo de valor de poeta renascentista sobre as aventuras de Orlando, herói da medieval "Chanson de Roland", do "Orlando Innamorato"de Boiardo (1483), e, finalmente, do "Orlando Furioso", de Ariosto (1516). É a obra de fôlego do autor, e de alguma forma, o seu projecto de vida,e acaba por ser uma espécie de ponte entre a medieval novela de cavalaria e a epopeia que a ela é devedora, em especial a de Boiardo eos grandes poemas épicos do Renascimento, marcados pelo apego à verdade histórica, pela sobriedade e austeridade, pela fidelidade aos modelos clássicos, pelo respeito pela poética de inspiração aristotélica ou horaciana.É, por isso mesmo,a última grande epopeia fantástica da literatura ocidental.
Mas o que é, afinal, "Orlando Furioso"?
Desde logo, uma prodigiosa fantasia que pretende, em simultâneo, retomar um dos lendários heróis medievais e arquitectar um passado mítico para a Casa de Este, que governava, então, o Ducado de Ferrara.
Uma narrativa cuja acção decorre na época de Carlos Magno e seus cavaleiros, tempo de infindáveis lutas entre Cristãose Sarracenos.
No auge do Renascimento italiano (que tinha já atingido o seu maior fulgor, qundo, em Portugal, apenas se iniciava), Ariosto, à medida qu vai modelando um sem-número de complexas personagens, consegue aliar, nesta sua epopeia, a riqueza e fantasia de tantos motivos herdados da tradição medieval às influências clássicas que dominavam a literatura humansita do seu tempo. O seu texto tem tanto de treiste, quanto de divertido, quanto de triste, de emoção pessoal, de distanciamento, de simplicidade e de formulaçaõ artificiosa.
Este é sem duvida, um dos acontecimentos editorias de 2007, tanto mais que se trata da primeira versão integral do grande poema de Ariosto. É mais do que justo,por isso, saudá-lo.
Carlos Ascensos André