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Wladimir Kaminer
WLADIMIR KAMINER ESCRITOR, entrevista por Rui Azeredo in O COMÉRCIO DO PORTO, 27/07/2003
«As minhas experiências na URSS tinham de ser eternizadas»
«Diverti-me imenso a escrever este livro e, quer se acredite ou não, a realidade era ainda mais inacreditável»
Wladimir Kaminer, nascido na ex-URSS mas a viver em Berlim, é um escritor, mas é também DJ e apresentador de rádio. Os portugueses vão começar a conhecê-lo pela faceta de escritor, agora que foi lançado entre nós pela Cavalo de Ferro a divertida obra “Militarmusik”, onde se traça um retrato impiedoso da ex-União Soviético. Kaminer esteve há dias em Portugal a promover o romance e deu uma entrevista ao COMÉRCIO onde fala de si, da sua obra e, principalmente, de liberdade.
• O COMÉRCIO DO PORTO - Dadas as diversas actividades que exerce considera-se um escritor? O que responde quando lhe perguntam a profissão?
• WLADIMIR KAMINER - Em primeiro lugar, sou um leitor. Porque há cinco anos que todas as semanas leio as minhas novas histórias no meu bar habitual. Estas são publicadas em forma de livro uma vez por ano. Para além disso, trabalho semana sim semana não como DJ na "discoteca russa" (ver www.russendisko.de) - uma distracção agradável.
• CP - A obra é assumidamente autobiográfica? É que sendo o protagonista um fantástico inventor de histórias torna-se difícil discernir entre a ficção e a realidade.
• WK - Eu estava consciente que a União Soviética dos anos 80 não seria propriamente um tema que iria interessar os leitores na Europa. Mas as minhas experiências na União Soviética, de quão rapidamente um mundo inteiro se pode afundar, tinham de ser eternizadas. Diverti-me muito a escrever este livro e, quer se acredite ou não, a realidade era ainda mais inacreditável do que nesta obra.
• CP - Em Portugal era até agora desconhecido. Isso poderá prejudicar o entendimento do livro ou este é acessível a todos?
• WK - As pessoas, em todas as partes do mundo, têm os mesmos medos e as mesmas esperanças. Elas procuram e não encontram nada. Riem e choram por causa disso. Porque é que haveria de ser diferente em Portugal?
• CP - Como caracteriza esta obra?
• WK - Uma pessoa não se deve limitar ao necessário, mas sim tentar guardar tudo na memória, todos os símbolos são importantes, também os do passado.
• CP - A ideia que fica é que apesar de todas as restrições os jovens da União Soviética tinham imaginação suficiente para levar uma vida divertida. Era assim?
• WK - Como em todo o lado! Como no Brasil, na China ou em África. Isso admira-o?
• CP - Qual é o seu sentimento em relação à actual Rússia e à antiga União Soviética?
• WK - A Rússia actual é um país completamente diferente, é muito mais aborrecida do que na União Soviética, porque se sabe praticamente tudo que vai acontecer. Hoje em dia, acho a União Europeia muito mais interessante. Ninguém sabe como esta Europa se vai realizar no futuro.
• CP - Retrata a história do seu país com ironia e crítica. É uma forma de mostrar a sua superioridade intelectual em relação ao regime da ex-URSS?
• WK - Não a minha, mas a de um indivíduo que é sempre mais esperto do que o estado, e assim deve ser.
• CP - Pretende regressar ao seu país ou está definitivamente estabelecido na Alemanha?
• WK - Eu sou uma pessoa livre e posso ir a todo o lado. Mas não se pode falar em voltar, porque não cresci na Rússia de hoje. Seria como se quisesse voltar à própria infância, e isto não é possível. E mesmo se fosse possível, sinceramente, não me apetecia. No fundo, qualquer mudança é melhor do que a estagnação.
• CP - Quais as suas ambições como escritor?
• WK - Comunicar com pessoas sobre um tema que nos interessa.
• CP - O seu “eu” está muito presente na sua obra. Não pensa escrever um romance na terceira pessoa, uma ficção total, sem intenções autobiográficas?
• WK - O romance como forma já é uma falsificação, ainda por cima na terceira pessoa… para que é que isto serve?
• CP - Quais são as suas referências literárias?
• WK - Todos os autores que têm alguma coisa para dizer. Os outros nem por isso.
• CP - Tem outras ambições a nível artístico? Quais?
• WK - Eu não tenho objectivos artísticos nenhuns, todos os meus objectivos encontram-se no âmbito da realidade.
• CP - Como convenceria alguém a ler “Militarmusik”?
• WK - Não ia fazer isto. Vivemos num mundo livre, ou não?
PERFIL
Wladimir Kaminer nasceu em Moscovo, em 1967, portanto na agora extinta União
Soviética.1
Em 1990, com a abertura vivida a Leste, mudou-se para Berlim, onde hoje vive com a mulher e dois filhos.
Em finais de 2000 publicou o seu primeiro livro “Russendisko”, preenchido com histórias reais e fictícias relacionadas com a discoteca que possui em Berlim. Actualmente é DJ nessa discoteca (vocacionada para russos e outras pessoas do Leste europeu) e apresenta um programa numa rádio almã.
Kaminer tornou-se num opinion-maker respeitado no meio cultural e literário alemão, posição sustentada na sua capacidade de comunicar e num humor corrosivo.”Miltarmusik”, a sua estreia em Portugal, foi o segundo livro que escreveu.

Entrevista com Rui Azeredo in Comércio do Porto
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