Passou tanto mundo desde a publicação de «Rayuela», em 1963. E no entanto, 45 anos depois, o fascínio que fez deste livro um monumento literário único e mítico para legiões de leitores e escritores, mantém-se intacto.
O título, «Rayuela» (traduzido para português como «O Jogo do Mundo»), alude a um jogo de crianças entre nós conhecido como macaca, uma brincadeira que enche de giz e números os pátios da escola e as praças onde brincam as crianças de qualquer bairro. Julio Cortázar foi desmedido na ambição: ampliou o jogo até lá conseguir meter um retrato da condição humana e pô-lo em frente de cada leitor convidando-o a participar activamente no jogo.
O gigante está dividido em três partes:“Do lado de lá”, “Do lado de cá” e “De outros lados (capítulos prescindíveis)”. É o próprio autor quem sugere que à opção pela leitura tradicional se junte a liberdade de saltitar entre cada capítulo de acordo com um esquema fornecido no início do livro. Neste convite está a vontade de alterar a passividade com que cada leitor se senta habitualmente frente a qualquer livro.
Em «Rayuela» está contida uma história de amor desesperado entre Horácio Oliveira e La Maga (Lucia) emigrantes sul-americanos que se encontram em Paris no final dos anos 50, (são os capítulos “Do lado de lá”) e que dentro da esquadria da cidade sobrevivem ao ritmo do jazz, do cinema e da pintura dessa época.
Horácio chega a exemplificar o que seria «…um mundo Maga que era a falta de jeito e a confusão mas também fetos com a assinatura da aranha Klee, o circo Miró, os espelhos cinzas Vieira da Silva, …». Quando não estão sós a boémia alarga-se ao “Clube” onde entram escritores, músicos, ceramistas e simples ociosos. O guru, (perceberemos isso melhor nos capítulos prescindíveis) é o romancista Morelli, cujos pensamentos dispersos, convulsos mas tocados pela genialidade acabam por revelar o Cortázar ainda oculto.
À ilusão trepidante, sucede a desilusão do regresso à Argentina (capítulos do “Do lado de cá”) onde as personagens principais são sombras dos restos da combustão do amor impossível. E quando chegamos ao Self-service dos capítulos “De outros lados (capítulos prescindíveis)” percebemos que «Rayuela» é um livro que – por mais que usemos uma bóia salva- -vidas que, em jeito de resumo, pretende apoiar futuros leitores – não se explica: «…o homem não é senão aquilo que procura ser, aquilo que projecta ser, apalpando através das palavras…»
Em «Rayuela» mergulhamos de cabeça para perceber como um romance pode ser um caos que se reinventa a cada leitura. A tradução de Alberto Simões é excelente e as notas que a acompanham são sucintas, claras e úteis.