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A raposa azul
Sjón
5 estrelas - Na grande ilha do norte, as antigas lendas ainda vivem.

"A Terra falha,/ tudo envelhece e se gasta./ A carne é pó - por mais enfeitada que esteja", canta uma velha balada islandesa. Nascido em Reiquejavique em 1962, poeta, romancista, dramaturgo, Sjón recebeu em 2005, por este livro, o prémio Nordic Council Literatura. A distinção parece justa, pois esta novela prova, à saciedade, que se pode dizer muito em poucas palavras, ou seja, a arte de contar reside no talento em suscitar no leitor aquele estado feérico de encantamento, que é a meta suprema de qualquer narrativa. Não admira que esta história, de uma extrema intensidade poética, contenha esse elemento, vinda da Islândia, terra natal de uma das grandes e esquecidas epopeias ocidentais, os "Edda". O elemento do maravilhoso, que é a imaginação vertida no quotidiano, que tanto pode ser belo ou horrendo, povoa estas páginas, em que se cruzam três destinos: o narrador, a rapariga deficiente e o padre. E, acima deles, a raposa azul, e a magia das latitudes boreais. 1883 é a data destes estranhos acontecimentos. Anos antes, um naufrágio dera à costa, trazendo riqueza aos habitantes da zona, mas também uma estranha rapariga, salva então pelo ervanário local, desde aí seu protector. O mistério que cruza a vida destes seres começa a revelar-se na noite da morte dela. Um sonho anuncia um prodígio e um desenlace, numa paisagem estranha e ominosa: "Nos átrios celestiais estava agora suficientemente escuro para as irmãs Aurora Boreal começarem a sua animada dança de véus. Com um encantador jogo de cores elas esvoaçaram leves e rápidas sobre o imenso palco dos céus." O tom está dado, a tragédia pode começar. E acaba numa caçada, em que a presa não é a raposa, mas o caçador que a persegue, como quem chama a morte, ou o perdão. A resolução do enigma está inscrita numa caixa de madeira, pertença da rapariga, que gostava de coleccionar penas de aves. Uma das inscrições dizia, em latim, citando Ovídio: "Tudo muda - nada perece". E, de facto, a metamorfose dá-se de um modo condizente com as velhas tradições locais, e com ela o resgate de uma abominação. Depois, pode chegar "a Primavera antes dos dias do homem".

José Guardado Moreira (06/03/2010, Actual/Expresso)
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