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Rashomon e Outras Histórias
Ryūnosuke Akutagawa
O universo que Akutagawa desenhou nos seus contos é o de um mundo desesperado e em luta. Um extraordinário contista

Desde 1951 que o nome de Ryunosoke Akutagawa é conhecido no Ocidente. Nesse ano, Rashomon, de Akira Kurosawa, venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, e uma pequena parte do mundo quis saber quem tinha sido capaz de imaginar tanta violência.
O filme era baseado no conto homónimo de Akutagawa - um dos seus primeiros - e também no duríssimo Num Bosque de Bambu, do mesmo autor. Em 2006, a Penguin compilou uma edição de 18 contos de Akutagwa, traduzidos por Jay Rubin, um professor de Harvard. Os japoneses mostraram-se contentes com a edição, em particular porque alguns dos contos eram considerados intraduzíveis. É essa edição que a Cavalo de Ferro edita agora em português, traduzindo do inglês e não do japonês original. A edição segue a divisão temática de Rubin, em quatro partes: Decadência, Guerra, Tempos Modernos e Vida Real.
A divisão faz sentido mesmo em termos biográficos. Akutagawa (1892-1927) nasceu pouco depois da abertura do Japão ao Ocidente, no período Meiji (1868-1912). Contudo, as histórias de épocas anteriores, de um feudalismo cruel, marcaram Akutagawa, que as retratou em peças históricas, reescrevendo a tradição oral japonesa. A primeira parte, Decadência, centrada no final do período Heian, aborda esses temas: a destruição, a violência, o uso do poder, a sobrevivência. Durante a vida de Akutagawa decorreram também as guerras sino-japonesa e russo-japonesa, que funcionam como fontes de inspiração para os contos da segunda parte, Guerra - entre os quais merece destaque o magnífico Lealdade (um dos considerados intraduzíveis). A terceira parte, Tempos Modernos, marca a viragem na escrita de Akutagawa; mas é na quarta parte, Vida Real, que, com o coração numa mão e um bisturi noutra, exuma os cadáveres da sua genealogia e se analisa impiedosamente, bem como ao mundo ao seu redor. É curioso que Akutagawa seja visto como um escritor liberal: é certo que há nos seus primeiros tempos uma denúncia do abuso de poder, mas a sua escrita é acima de tudo marcada pela delimitação das zonas negras da mente humana. Ele é liberal por oposição ao que existe antes; se surgisse hoje, Akutagawa seria acusado de violência gratuita e tornar-se-ia um rodapé na história da literatura marginal.
Dois dos contos de Decadência são absolutamente extraordinários: Num Bosque de Bambu e O Biombo Infernal. Mas como o filme de Kurosawa usa o título do conto que dá nome a esta edição, convém falar também dele: é a história de um servo que se abriga das intempéries nas portas da cidade, onde se depositam os corpos mortos e há corvos em redor. Quioto sofrera calamidade atrás de calamidade, e o servo, que levara até aí uma vida digna, percebe que só tem duas chances: roubar ou morrer. A capacidade de Akutagawa para descrever este inferno é admirável - a seguir a ser um exímio retratador da violência (externa ou interna), ele é um estilista imenso, o que aliás o levou a atacar Tanizaki por ser demasiado seco. É o que os escritores fazem: odeiam-se.
O servo encontra, entre os cadáveres, uma velha esquelética que retira os cabelos aos mortos, o que o deixa atónito. Coloca-se à frente da mulher e exige saber porque está ela a roubar os cabelos. Ela responde que quer fazer uma peruca. Cada gesto, cada pensamento é detalhado com minúcia. A velha continua a justificar o seu “crime”, o que cria uma ideia na cabeça do servo: se é suposto ele entender o acto dela, então ela também certamente entenderia se ele roubasse as suas roupas (o que faz). Neste simples conto encerra-se o universo de Akutagawa: a moral, o poder, o que torna um ser mais poderoso do que outro e como o contexto leva alguém a cometer os actos mais alucinados.
Esta fragmentação moral é levada ainda mais longe em Num Bosque de Bambu, dos mais extraordinários contos alguma vez escritos. Inteiramente narrado pelos protagonistas de um crime, a perspectiva do conto vai-se alterando a cada novo relato: não só a narrativa do que aconteceu sofre ligeiras alterações como a mudança de voz introduz cambiantes morais diferentes. Um homem é morto, a sua mulher violada; o autor do crime confessa-se, mas o seu relato difere do da esposa e ainda mais do do morto, que, através de um médium, envia também o seu relato - e garante ter-se matado depois de a mulher o ter abandonado. É impressionante como Akutagawa manipula a nossa moral e nos faz inclinar ora para este ora para aquele, com um controlo absoluto da linguagem, de modo a deixar sempre prevalecer a ambiguidade. Este conto, por si só, seria suficiente para fazer de Akutagawa um escritor maior.
O Biombo Infernal não só está à sua altura como introduz um dos temas dilectos do autor: a capacidade de um artista sacrificar tudo em nome da arte. O conto tem por personagem central um pintor odiado por todos, mas pai de uma rapariga inocente amada por todos. Yoshihide (o pintor) não se interessa por mais nada, excepto por levar ao limite a sua arte - é-nos dito que uma vez ficara horas a desenhar um cadáver, o que deixa as pessoas chocadas. Yoshihide só pinta o que vê, pelo que assiste às maiores atrocidades (ou tenta provocá-las) preocupado apenas em desenhá-las. Quando o imperador lhe encomenda um biombo que retrate o inferno, ele imagina determinada cena que não pode reproduzir, porque nunca a viu. O imperador faz-lhe a vontade: fará uma carruagem arder com uma bela rapariga lá dentro. Na sua ânsia de levar a pintura ao extremo, Yoshihide perde a filha. Esta, por sua vez, ter-se-ia envolvido com o imperador, garantindo a segurança do pai. Nunca fica claro se Yoshihide se terá apercebido de que a filha dormiria com o imperador e se o seu pedido é um acto de vingança; sabe-se apenas que após a morte da filha ele se suicida.
O conto é em parte premonitório: Akutagawa viria a suicidar-se aos 35 anos, após um período de doença que se seguiu a uma viagem à China. Mas a frieza de Yoshihide perante a morte da filha faz também uma estranha rima com uma cena de Certidão de Óbito, da quarta parte - um conto lapidar, que enumera as mortes na vida de Akutagawa e que tem um dos mais perfeitos inícios que alguma vez li: “A minha mãe era louca”. A frase seguinte merece ser analisada: “Nunca me senti próximo dela, como um filho se deve sentir (...)”.
Aquele “deve” mostra bem como em Akutagawa as relações têm vínculos de obrigação muito demarcados. Nesse conto, ele relata a sua adopção pela tia, o seu apartamento do pai, a morte de uma irmã mais velha antes de ele nascer e as mortes de ambos os pais. A escrita de Akutagawa, nessa altura, já era mais seca, mais laminar. Uma cena é exemplar disto - e é aqui que surge a rima com O Biombo Infernal: na noite anterior à morte da mãe, ele e a irmã estão no leito desta. A irmã chora e ele não consegue. Envergonhado pela sua insensibilidade, Akutagawa esforça-se “por fingir”. É óbvio que não se trata de insensibilidade, antes de uma hiper-consciência das emoções; contudo, é difícil não pensar em Yoshihide, incapaz de mostrar emoção perante aquilo que está a perder.
Este período da escrita de Akutagawa é marcado pelo pendor suicida do autor. A morte, os nervos em franja, a loucura, marcam todos os escritos desta quarta parte - poderosíssima, e que lhe vale a grandeza do seu nome. Os contos da Guerra serão, apesar da sua beleza estética e da sua riqueza histórica, os menos interessantes; mas é na terceira parte, Tempos Modernos, que o Akutagawa fundamental se ergue, é aqui que o seu humor cínico se revela - e não é por acaso que Patas de Cavalo é comparado a Kafka.
Agora olhe-se para o espectro que a escrita de Akutagawa envolve: da violência extrema dos contos iniciais, que retratam um mundo feudal e primitivo, até à crueza da escrita dos contos finais, que revelam uma sofisticação psicológica imensa, uma boa parte da fundações do nosso universo mental, dos nossos extremos, está aqui retratada.

João Bonifácio, «Público/Ípsilon», Julho 2012
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