«A infância revisitada» por Ana Cristina Leonardo, in Expresso 19/06/2004
Um romance norueguês contemporâneo que conta a história de um rapaz a quem
começa a cair o cabelo. Uma metáfora sobre a tolerância escrita com
delicadeza extrema
Lars Saaby Christensen nasceu em Oslo em 1953 e o seu primeiro livro
(Amatoren, 1976) seria imeditamente notado, tendo recebido então o prémio pela melhor estreia literária. Autor profícuo, também conhecido como poeta e argumentista, reconhecidamente influenciado por Knut Hamsun (Nobel norueguês de 1920, cujos títulos publicados entre nós nas décadas de 40 e 50 se encontram há muito esgotados), esteve em Portugal aquando do lançamento em Abril de Herman, romance de 1988 passado entretanto ao grande ecrã pelo cineasta Erik Gustavson.
Com vasta obra, e acumulando alguns dos mais prestigiados prémios das letras
escandinavas (nomedamente o Prémio do Livro Nórdico, que abrange a Islândia,
Suécia, Finlândia, Dinamarca e Noruega, e que lhe foi entregue em 2002),
Christensen é um dos escritores da actualidade mais reputados no seu país,
estando traduzido numa dezena de línguas. Chega-nos agora graças à Cavalo de Ferro, uma dinâmica e jovem editora que vem insistindo em apostar em
literaturas com menor divulgação no mercado livreiro nacional.
Da Noruega, de facto, pouco mais terá visibilidade para além de Ibsen (ou da
actriz Liv Ullman), e isto apesar do país poder contar com três Nobel da
literatura no século XX. Assim, a tradução de Herman servirá, porventura,
também para chamar a atenção sobre o imaginário desses territórios brancos
do Norte, aos quais Jorge Luis Borges dizia tanto dever a ficção.
Herman é uma criança como as outras, talvez um pouco mais imaginativa e
solitária do que o habitual. Come folhas e receia poder transformar-se numa
árvore; sonha com a grua que o pai maneja com perícia, tão alta que lá de
cima de vê a China; fala com a mãe numa linguagem só deles, sem respeito
pela ordem das sílabas; por vezes mente por medo e vive fascinado por uma
menina de cabelos ruivos e desgrenhados que escondem ninhos de pássaros. Um
dia o cabelo começa-lhe a cair e a vida do pequeno herói transforma-se. Na
escola agridem-no; depois têm pena dele. Os pais tentam protegê-lo mas é com o avô inválido que consegue esquecer a doença que o torna diferente. Narrado na terceira pessoa, embora o ponto de vista seja o da criança, Herman é um belíssimo livro, contido, de uma delicadeza quase espartana na linguagem, ainda assim transbordante de lirismo. Organizado segundo as estações do ano - Outono, Inverno e Primavera - Lars Saaby Christensen deixa em aberto o
futuro da sua personagem, abandonando-a ao Verão, ao momento em que o seu mundo se tornará inevitavelmente outro. A não deixar passar por entre os densos e
voláteis escaparates das livrarias.