"Herman Encontra o Mundo" por Maria José Oliveira in Público/MilFolhas, Sábado, 17 de Abril de 2004
É com alguma timidez que os editores nacionais lançam para o mercado livreiro literatura escandinava. Precisamente o inverso do que acontece nos países nórdicos, onde a curiosidade em torno dos escritores portugueses tem vindo a aumentar (para lá de Saramago e Lobo Antunes).
Ao pequeníssimo rol de autores noruegueses traduzidos em Portugal (Henrik Ibsen. Jon Fosse, Knut Hamsun ou Karim Fossum), a editora Cavalo de Ferro decidiu (e bem) acrescentar mais um nome: Lars Saabye Christensen (1953). O autor, nascido em Oslo, é reconhecido como um dos mais conceituados escritores noruegueses da actualidade. Do seu "currículo" literário constam mais de uma dezena de romances, três colecções de contos, alguns livros de poesia e nove guiões cinematográficos. Entre estes últimos encontram-se os argumentos das adaptações para cinema de dois dos seus romances: "Herman" (realizado por Erik Gustavson em 1990) e "Gutten som ville vaere en af gutta" (de Anita Killi e Randall Meyers, 1999).
Desde finais da década de 70 (o seu primeiro livro, "Amatoren", foi publicado em 1976), Lars Christensen já arrecadou um considerável número de galardões literários, entre os quais o Prémio da Crítica na Noruega, Dinamarca e Suécia, em 1998 (facto inédito até então), o Prémio das Livrarias (1990 e 2001) e o conceituado Prémio do Livro Nórdico (2002).
A pretexto do lançamento de "Herman", romance que assinala a estreia nacional de Christensen, a Cavalo de Ferro convidou o autor a visitar Lisboa. Na véspera do seu regresso a Oslo, cidade frequentemente revisitada nos seus livros, o escritor aceitou conversar com o Mil Folhas, rematando uma maratona de entrevistas realizadas em dois dias.
Ao longo de pouco mais de meia hora, entre respostas lacónicas, Lars Christensen repetirá: "O mais importante é escrever", escusando-se, desta forma, a dispor longas explicações sobre o seu labor literário. Somente no final da entrevista acederá a revelar alguns detalhes: que os seus livros propõem uma "estreita ligação" entre a poesia e a prosa; que na sua obra se descortinam as influências de Knut Hamsun (1859-1952), mas também da música "rock" e dos "blues" dos anos 60/70 e ainda do cinema. Sobre as distinções literárias que lhe foram atribuídas prefere não fazer comentários. Quanto à reincidente inclusão do seu nome na corrida ao Nobel da Literatura diz: "Não penso nisso".
Lars Christensen é um contador de histórias. É apenas nisso que pensa quando escreve, porque, diz, "contar histórias é um desejo profundamente humano".
O autor escreveu "Herman" em 1988, num momento em que a sua escrita começa a relevar um fascínio gradual pelas histórias sobre a infância e a adolescência (nos livros que se seguem regressará ao tema) e um profundo afecto por Oslo, onde decorre a acção desta narrativa.
O livro poderia apresentar-se em pouquíssimas palavras - gravita em torno de Herman, um menino de cinco anos, que, devido a uma maleita desconhecida, começa a perder cabelo -, mas esta história aparentemente simples serve uma mescla de metáforas. No pequeno universo de Herman (o livro, escrito na terceira pessoa, permite ao leitor observar o mundo através dos olhos da criança) recolhem-se o medo, a rejeição, a perda da inocência, a imaginação, a construção da identidade, os sonhos.
Durante a concepção de "Herman", Lars Christensen experimentou um exercício: rebuscou nas suas memórias de infância, revisitando os lugares onde cresceu, as ruas de Oslo, regressando às salas de aula e recordando as personagens que habitaram aquele tempo. "Tive de me lembrar como foi ser criança. É uma fase muito importante da vida a passagem da infância para a adolescência". Porquê? "Porque existe o medo, há muitas fragilidades, muitos momentos dramáticos. Mas também muita comicidade".
Embalado nas memórias, Lars Christensen continua: "Gosto de escrever sobre os lugares que conheço, as ruas onde cresci. À noite ia muitas vezes ao cinema, vi muitos filmes do Zorro [um dos heróis de Herman] e por isso decidi inclui-lo nesta história. Foi uma personagem muito importante para quase todas as pessoas da minha idade".
"Herman" está dividido em três capítulos - Outono, Inverno e Primavera (por esta ordem). O escritor explica que esta foi uma "forma de estruturar o livro", mas a escolha das estações do ano têm correspondência directa com os estados de alma do protagonista. Por isso, explica o autor, "acaba na Primavera porque logo a seguir, no Verão, Herman encontra o mundo e transforma-se numa criança mais forte". "Fiquei muito contente com isso", acrescenta o escritor, como se o rumo da personagem lhe tivesse escapado das mãos.