«Do ponto de vista de uma criança que perde o cabelo» por Luís Naves in Diário de Notícias, 29/04/2004
Entrar na forma de pensamento de uma criança não é tarefa fácil para um adulto. Só podemos especular sobre as razões: nos anos de crescimento, talvez ocorra uma qualquer cristalização que torna a nossa visão do mundo mais realista e cinzenta. Há livros em que o autor tenta interpretar o universo esquecido da infância, mas é muito mais vulgar que isso seja feito no âmbito de um género, a literatura infantil, que possui regras específicas.
Este romance, Herman, pega no imaginário das crianças. Por essa ousadia, e não sendo literatura infantil, constitui um objecto estranho e pleno de inteligência. Escrito pelo norueguês Lars Saabye Christensen, nascido em 1953, a obra usa todos os recursos da fantasia, contando a sua história através dos olhos e sentimentos de uma criança. O autor tem um invulgar poder de efabulação e, no fundo, utiliza regras próprias, que não se confinam a géneros. Herman, o protagonista, é um rapaz com seis anos, confrontado com um problema, a ameaçadora queda de cabelo. De repente, para o miúdo, o mundo torna-se hostil e parece ruir.
O romance desenvolve-se numa série de cenas domésticas e escolares onde Christensen descreve o ambiente de Oslo no início dos anos 60, dispondo as suas personagens neste contexto. Curiosamente, figuras mais delirantes quanto mais afastadas do núcleo familiar do protagonista.
O tom geral do livro é muito poético e, por isso, o texto tem enorme riqueza. Alguns leitores poderão pensar que, por vezes, o autor vai demasiado longe nos efeitos, inventando imagens excessivamente artificiais. «Um enxame de mosquitos no céu da boca» para descrever uma comichão ou uma frase como esta: «a neve amontoada deve chegar à altura de três metros acima do nível do mar». Apenas dois de numerosos exemplos possíveis.
DELÍRIOS. As fantasias de Herman em torno de algumas das personagens têm também grande diversidade e, em certos casos, poderá haver exageros nos delírios infantis, com o exemplo talvez mais expressivo na figura da mulher das formigas. O romance é escrito com frases curtas e muito diálogo, no tempo presente, o que acentua o seu ritmo interno.
A magia do cinema é uma constante, nomeadamente o filme de aventuras (talvez o mais próximo desse universo infantil), com destaque para a personagem de Zorro. Alguns dos momentos são poderosos, como a cena em que o professor tenta disciplinar a criança e lhe ordena que retire o gorro da cabeça, o que ela recusa fazer.
Noutra passagem de grande beleza, o avô (doente na cama, mas olhado pelo miúdo como alguém de grande sabedoria) recorda a forma como conheceu a sua mulher (e avó de Herman): o nó do atacador dos sapatos desfez-se, ele atrasou-se e perdeu o barco. Teve de viajar no barco seguinte, onde conheceu a senhora. «Se o nó do atacador não se tivesse desfeito, tu não estavas sentado aí», diz a personagem. A sua narrativa continua e ficamos a saber que, 20 anos mais tarde, quando corria para apanhar o mesmo barco, a avó teria uma queda fatal. «Deus é um tipo engraçado», suspira o velho, em conclusão.
O romance é enriquecido com várias pequenas histórias como esta, que revelam o poder da imaginação do jovem autor norueguês. Lars Saabye Christensen escreveu dezena e meia de romances, colecções de contos e argumentos cinematográficos. Foi distinguido no seu país com vários prémios e é editado pela primeira vez em Portugal, numa tradução directa do norueguês, assinada por Inga Gullander.
PALAVRAS CONTRA A INDIFERENÇA
Numa recente visita a Lisboa, onde apresentou Herman, Lars Saabye Christensen explicava que a ideia de ter o seu protagonista a perder o cabelo era «uma metáfora daquilo que sucede quando alguém se torna diferente». Para o escritor norueguês, o livro é sobre a «tolerância» e trata do tema da estranheza perante os outros. Herman foi escrito em 1988. Adaptado ao cinema (a versão cinematográfica foi realizada por Erik Gustavson) o romance encontra-se traduzido em dez países. O autor, que se considera «um contador de histórias», tem feito um trabalho de grande diversidade, nomeadamente incursões na poesia, no teatro, no conto e na escrita de guiões para cinema. Entre os seus prémios mais importantes, conta-se o Prémio do Livro Nórdico. Publicado pela primeira vez em 1977, com o livro Amatoren, o escritor nórdico é mais conhecido no seu país devido aos títulos Beatles, de 1984, e Halvbroren, de 2001, numa obra de grande extensão, quando se avalia a idade do autor. Para além da música e do cinema, os temas de Lars Christensen privilegiam visões da infância ou a imagem da cidade de Oslo.